Existe um repúdio á bandas novas? Monsters Of Rock 2015








(Esta matéria contempla um breve comentário de um episódio isolado do que foi o excelente festival Monsters of Rock 2015. Uma resenha completa do festival estará com links disponíveis em breve!)

As pessoas por natureza são sedentas por novidade. Sem o fator surpresa e a constante mudança ou evolução das coisas a vida fica monótona, perde a graça. Mas pelo que parece os fãs de rock estão mudando esse pensamento.

Com o advento da internet esse fator surpresa foi exterminado. Hoje compramos um ingresso para um show mas antes assistimos o mesmo show no youtube e vemos o set list da turnê. Sabemos exatamente o que vai acontecer e a ordem das musicas. Assim muitos se dão ao luxo de pagar caro no ingresso e passar o show inteiro tentando gravar e postando em redes sociais. A tal questão de viver o momento foi para o espaço.

Nos preocupamos mais em registrar para assistir depois da mesma forma que estávamos fazendo antes de ir ao show: Vivendo a vida atrás de uma tela. Onde quero chegar é na seguinte prerrogativa, muitos estão preocupados em apenas dizer que compareceram á tal evento importante e não se preocupam com a experiência em si. Quantas pessoas não sonham em ter tido a oportunidade de ver uma banda no seu auge como Led Zeppelin ou Deep Purple? Existem hoje novos Led Zeppelin’s por ai e novos Purple’s em atividade com excelentes álbuns e com uma excelente qualidade performática, mas as pessoas só se interessam por uma reunião de uma banda antiga ou apenas marcar presença em um show de uma banda que esta se aposentando para em fim dizer descansem em paz.

E o futuro? Essas bandas foram enigmáticas para época e fizeram historia no mundo da musica mas a maioria está ai em atividade apenas para suprir a necessidade dos que ainda não tiveram a oportunidade de assisti-los em plena forma. Querendo ou não um artista tem uma hora que precisa se aposentar para manter a dignidade. Existem vocalistas que já não alcançam mais as notas e guitarristas que parecem múmias apáticas em cima do palco. Mas é o trabalho deles certo? Certo. E concordo que pode ser a ultima oportunidade de ver essas lendas em ação.

Segue um relato que complementa essa ideia:

” Percebendo que as grandes bandas estão em fase de aposentadoria, adquiri um ingresso para o festival Monsters of Rock que aconteceu em São Paulo em 2015 movido pelo excelente line-up (KISS, Ozzy Osbourne, Judas Priest, Motorhead, Manowar, Accept, Yngwie Malmsteen,Unisonic, Primal Fear…etc) mas o que me fez tomar a atitude de adquirir uma passagem aérea e me endividar um pouco era a condição de saúde do Lemmy Kilmister o que me fez pensar que seria a minha primeira e única oportunidade de ver o Motorhead em ação. Assisti boquiaberto pela TV a apresentação que fizeram no Rock in Rio 2011.

O Monsters of Rock daquele ano trouxe nomes consagrados e novos nomes também, estes novos nomes como tocam primeiro acabam recebendo menos atenção, mesmo sendo bons, só atraem um pequeno público por que a maioria comprou o ingresso pelos headliners e não querem enfrentar um sol de 13h da tarde para assistir a uma banda que não conhecem.

E então, com o ingresso do Monsters na mão comecei a ouvir as bandas que não conhecia do line-up, como as mais novas, mas sempre filtrando dentre as novas aquele estilo que mais se encaixa em um perfil. E então percebi que as bandas novas eram muito boas e valia muito a pena pegar aquele sol quente mesmo para assistir aquelas que possuíam um estilo que desconhecia por ser novidade como o new metal do Coal Chamber. E uma espécie de Mamonas Assassinas gringa? Steel Panther, que entrega um hard rock oitentista farofeiro de extrema qualidade mas que fazem letras com um forte cunho humorístico que lembra o Tenacious D. Festivais são assim mesmo, vários estilos para agradar à todos. Em material de bandas novas tinha para todos os gostos: Clássico: Rival Sons, Metal Moderno:  Black Veil Brides. Depois de alguns dias eu não estava mas tão animado assim para ver o KISS, Ozzy, Judas ou Motorhead ,(exageros á parte), eu estava animado para ver ao vivo Rival Sons!! Isso mesmo. Pois mesmo tendo o sonho de ver essas bandas clássicas, já havia assistido intermináveis shows em vídeo, e sabia como seria, mas Rival Sons era uma banda que ainda não havia tido oportunidade de ver nem em vídeo. Ouvi exaustivamente as musicas e ficava cada vez mais impressionado pela sonoridade e então vi alguns clipes e trechos de shows e ai tive a certeza que era um novo fã. Era como ver Led Zeppelin ou Black Sabbath no auge! A banda era incrível, as musicas fascinantes, e então chegou o grande dia.

Estava lá o publico sedento por seus clássicos mas alguns em silencio e outros como eu vibrando e curtindo o som daquele novo som. (Obs: Só houve uma pequena comoção na plateia quando carismático baterista enganado por algum oportunista empunhou uma camisa de um time de futebol no palco, e como o publico não perdoa vaiou um pouco e a banda riu sem entender e continuaram o show).

Como um todo o Rival Sons foram muito bem recebidos pela plateia e com certeza conquistaram muitos fãs. Mas no dia seguinte um outro nome novo no line up não teve a mesma sorte. Ouvi o som do Black Veil Brides na playlist pré-show e gostei de algumas musicas mesmo não fazendo muito o meu estilo. A banda é muito talentosa e competente assim como o Rival Sons mas tem um som mais moderno enquanto o Rival Sons aposta na estética vintage não só visual como musicalmente falando.

Logo no começo da apresentação alguns espectadores que estavam ali esperando os próximos shows começaram a vaiar a apresentação do Black Veil Brides que estava entregando um ótimo show mas como sua sonoridade e estética não fazem lembrar os clássicos foram hostilizados.”…




E então, será que para serem boas as bandas novas precisam continuar fazendo musicas sempre parecidas com a dos medalhões do rock? A historia da musica diz o contrario. Uma hora as pessoas cansam da mesmice. Por isso o blues foi modificado e acelerado assim o rock nasceu. Pois o blues é bom, mas o rock conquistou novos fãs como da mesma forma revoltou os fãs conservadores. Assim como um fã de metal pode torcer o nariz para uma levada á lá Johnny B. Goode ( Chuck Berry), Big Balls of Fire( Jerry Lee Lewis) ou Can’t Buy Me Love (The Beatles) sem saber que essas musicas e bandas inventaram um novo estilo para a época e inspiraram os precursores do Heavy Metal no final da década de 60 como o Black Sabbath de Ozzy e do hard rock posteriormente do KISS. Todos esses percursores do heavy metal eram fãs do rock dançante e simplório do inicio, assim como do blues, quando estes eram jovens e essas musicas fizeram com que eles se tornassem músicos para a nossa sorte hoje.

Então a mudança pode ser boa e pode ser ruim, mas foi sempre necessária para perpetuar o rock por estes 60 anos. Mesmo o Rival Sons chamando a atenção, o Black Veil Brides ter sobrevivido ás vaias e alguns terem curtido as outras bandas de abertura eles continuaram ofuscados com os medalhões e poucos ali presentes que não conheciam as bandas novas mesmo gostando de algumas apresentações não apoiam devidamente como apoiam os veteranos. E se no passado o  KISS fosse hostilizado por usar maquiagem, o Black Sabbath por tocar musicas fúnebres enquanto só tocavam sobre amor, ou Judas Priest por usar roupas de couro e correntes? Onde estariam os headliners do festival hoje? Será se ainda haveriam festivais de rock?

É… eu não cheguei a falar que o show do Motorhead não aconteceu devido a saúde fragilizada do Lemmy, que acabou vindo a falecer o final do mesmo ano de 2015 e também foram embora logo em seguida David Bowie, Scot Weiland(Stone Temple Pilots/Velvet Revolver),Glenn Frey (Eagles), Keith Emerson (Emerson, Lake & Palmer) e o lendário produtor dos Beatles George Martin.

Os grandes estão indo embora um após o outro e quando paramos para pensar que Paul MacCartney (The Beatles) esta caminhando para os 80 anos, Ozzy Osbourne (Black Sabbath) para os 70 e os membros do Iron Maiden já estão na casa dos 60 anos, e Axl Rose (Guns N’ Roses) com 54, só para listar alguns representantes dessas década, tomamos consciência como o tempo voa e nada é eterno para a musica que precisa de novos nomes para se manter viva.

[Gene Simmons da banda norte-americana KISS disse em uma polêmica entrevista: “O rock enfim está morto. A morte do rock não foi de causa natural. O rock não morreu de velhice. Ele foi assassinado.”]